Quem deseja a sorte alcança-a sempre. Não deprecies nunca os teus
sonhos. Deves fazer um pacto com eles. Eles são a nascente e a força
inesgotável que te levarão à vitória. Atrás do obstáculo, encontra-se uma
liberdade virginal, um horizonte mais vasto.
O obstáculo é o espelho das tuas próprias hesitações, das tuas
confusões. Utiliza o obstáculo para te esclarecer a ti próprio. A provocação do
dia a dia é sempre uma lâmpada para a alma.
Enfrenta a provação com o desejo de te conhecer, de te realizar. O
sucesso é apanágio daquele que transforma o obstáculo em fogo de alegria, se
serve dele como dum trampolim, para crescer em paixão, em amor, como o
guerreiro Trungpa que entoa o seu cântico de vitória. Considera o obstáculo
como um nobre e grande adversário.
A sorte dorme desde sempre dentro de ti próprio, como um tesouro puro.
Precisas simplesmente de acordá-la. A sorte procura-te, desde toda a
eternidade. Na verdade, a sorte está enamorada de ti. Não vergues. Não
desesperes. Deves fazer-te belo para o encontro, mostrar as tuas mais belas
cores, as tuas mais belas paixões. Elas são as chaves mágicas que abrem todas
as portas e tornam leves o que é pesado.
Não te prendas nunca aos resultados que alcanças. Desviar-te-iam do
Caminho e impedir-te-iam de avançar. Deves ter sempre uma nova aventura
antecipada à tua própria vida, uma paixão sempre nova.
O eterno despertar de ti próprio destrói a lassidão, a tristeza, o
sentimento de fracasso. É uma nascente de alegria permanente.
É preciso viver como se mantém uma fogueira. Procura experimentar uma
paixão, uma grande idéia, cada dia, divertindo-te com a tua audácia, sem
orgulho, permanecendo humilde perante as belezas da Criação.
Estamos unidos ao mundo, e aos mistérios do universo, por laços subtis.
O teu encontro com os outros tem por objectivo a tua própria harmonia.
Na confusão e no caos do mundo, sentimo-nos perdidos, dispersos,
isolados. Este sentimento de fragilidade, de solidão, é uma ilusão. Aprende a
considerar os indivíduos como faíscas de um único fogo.
Desenvolve em ti o entusiasmo, a certeza, como o marinheiro mantém o
rumo sobre um mar revolto, sem perder a esperança da meta, e o destino.
Deves tornar visível o objectivo que pretendes alcançar, como um mandala
numa meditação. Apresente a gostar do sucesso, Fá-lo brilhar acima dos teus
actos, como um sol, uma bela luz. Só então ele se entregará a ti.
Concentra o teu espírito numa única coisa de cada vez, evita a
dispersão. Concentra a tua vontade numa cabeça de alfinete, e conseguirás
atravessar o obstáculo.
És tu mesmo o teu próprio adversário, a causa repetida dos teus
fracassos. Há em ti um mundo obscuro que tu não conheces. Enfrenta-o com armas
de luz.
Não desvies nunca a cabeça quando estás em frente do obstáculo.
Desarma-o pela paciência e alegria.
A agressão não consegue nada. Cega o espírito e despedaça-o contra o
obstáculo. Segue o exemplo do pássaro. Desprende-te do solo pela meditação.
Somente a serenidade e a elevação permitem transpor a mais alta montanha.
Não descuides nada. Tudo é receptáculo de promessa, se o teu olhar for
de alegria. Não aprendas a pensar em termos de começo e de declínio, de bem e
de mal, de luz e de escuridão. Em cada coisa, aprende a ver o começo de todas
as coisas.
Aprende a renascer a cada instante. Para onde quer que olhes, é aí que o
universo começa, e a alegria está no seu início.
A disciplina não é uma canga rígida, que estrangula o corpo. Ela permite
que nós lembremos constantemente de nós próprios.
Dá aos outros a possibilidade de amar e existir, pois eles têm tanta
importância como tu. Os outros brilham como as estrelas no céu. Cada um deles é
um único sol, uma luz primordial.
Ter sucesso exige uma grande confiança nos outros. Ninguém pode ter
sucesso sozinho. Os outros são os mil braços que ajudam a construir a vida de
cada um. É assim que o universo funciona, desde a mais pequena célula de vida
até às galáxias mais longínquas. Aprende a considerar o universo como uma rede
de boas vontades.
As provações devem ser aceites com coragem e doçura. Cada uma delas te propõe
a riqueza do coração e a alegria do espírito. Precisas de coragem para as
vencer, e da doçura para as amar.
Nós receamos a confrontação, o encontro com o outro, porque temos medo
de ser destruídos ou diminuídos. Habituámo-nos a olhar para o mundo como uma
sucessão de fracassos, de desastres. Inverte essa errónea maneira de ver. De
todas as vezes, o obstáculo indica os degraus da tua progressão. Ele é o
momento requerido para a tua transformação. Não o encares como um adversário
aterrador. Não passa de um espelho, no qual tu te reflectes a ti próprio, com
os teus medos, as tuas hesitações.
Não conserves em ti nenhuma animosidade, nenhum rancor ou desejo de
vingança. Desenraíza os maus pensamentos, os fantasmas, as obsessões que
paralisam a vontade. Não dissimules nada. Uma cobra que se faz desaparecer
debaixo de uma cama perturba mesmo assim o repouso do homem adormecido. Para
vencer os teus desejos, cultiva em ti o desejo de te venceres a ti próprio.
Elimina a pouco e pouco os hábitos, os automatismos, as más disposições
que dividem e atravancam o espírito.
O sucesso não é outra coisa senão a imagem mais bela de ti, de repente
construída, realizada diante de ti. O sucesso é uma mulher envolta em sedas e
jóias resplandecentes. Aprende a seduzi-la.
Para evitar o fracasso, as decisões devem antes de mais nada ser
meditadas, com as suas conseqüências. Imagina-as como uma rede de energias, com
forças que se cruzam, se amplificam ou se combatem. Tu és o centro delas. A
única nascente. É preciso iluminar o obstáculo muito longe, antes de o
enfrentar, compreender o seu mecanismo de funcionamento, para não ser
surpreendido e vencer as suas armadilhas.
Utiliza as tuas sensações de embriaguês, de prazer, com uma clara
consciência de ti próprio. Dá um novo significado a toda a acção, a toda a
experiência, a todo o combate da vida quotidiana. Então conhecerás a alegria
dos vencedores, daqueles cuja força interior está polarizada sobre a meta a
atingir, como a agulha de uma bússola.
Não te desvies da acção quotidiana, se queres conquistar a mais nobre
das vitórias: a vitória sobre ti próprio.
O desabrochar do ser é o maior dos sucessos. Dá a paz do coração, a
alegria de viver e a lucidez do espírito. Então os obstáculos caem por si, e as
dificuldades tornam-se simples escalões necessários à tua progressão.
Encontra o teu centro, a partir do qual poderás construir a tua vida,
empreender, realizar um projecto. Esse centro, que é a tua nascente de vida
pessoal, é como um lago calmo, que nenhuma paixão agita. É um silêncio
profundo, espiritual, que se produz quando o pensamento pára, com as suas
palavras e as suas imagens. Faz brotar a tua acção desse silêncio.
O sucesso pede uma disposição feliz do espírito. Nenhum pensamento
negativo deve contrariar o teu desejo de realização.
Não desesperes da felicidade. Ela não te espera no extremo oposto da
terra ou numa vida futura. Ela está aí onde te encontras. Espreita o momento em
que estarás enfim disposto a convidá-la, a recebê-la. Vira os teus pensamentos
para ela. Basta-te simplesmente ultrapassar o teu medo.
A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e
o deslumbramento do espírito.
A felicidade não é um paraíso fechado, separado do mundo. É, ao mesmo
tempo, a nascente e o oceano.
Para ser feliz, aprende a desejar na alegria e na inocência. Não há
felicidade sem vontade de felicidade.
O que torna feliz também pode causar a tristeza. Não te submetas mais às
tuas paixões. Aprende a ultrapassá-las. Então a tua alegria será maior.
A felicidade é um assoalhamento da alma. Em cada coisa, procura o pleno
sol.
O orgulho, a arrogância, são protecções miseráveis. Suprimindo-os,
suprimes a distância que te separa dos outros.
Julgas que a felicidade é efémera, e que está ameaçada pelas agressões
da vida quotidiana. Quando sentes a alegria, chega muito depressa a
inquietação, o sentimento da brevidade das coisas. Não te prendas a medir o que
te é dado. Contenta-te em viver o instante como se ele nunca devesse acabar.
Somente o instante é eterno. Nunca apreciamos plenamente o instante.
Ganhaste o hábito de crer que o homem dispõe de um só vida, limitada
pelo nascimento e morte. Julgais que a felicidade seja possível num lapso de
tempo tão curto, no qual ressoam a angústia do tempo e a ameaça da morte?
A felicidade consiste em descobrir a parte de eternidade escondida na
outra, e a reconhecê-la como a sua própria.
Não rejeites o prazer sexual, como se ele fosse indigno de uma vida de
conhecimento espiritual. Os adeptos do tantrismo dizem que a experiência amorosa
permite atingir a Clara-luz. O encontro físico de dois corpos é um acto
sagrado, pois cria simultaneamente energia, amor e luz.
Reencontra a inocência do presente, a clareza simples das coisas.
Aprende a viver a eternidade.
Somos responsáveis pelas nossas acções, pelos nossos comportamentos.
Colhemos o que semeamos. É a grande lei kármica de causa e efeito. Duas razões
devem impelir-nos a procurar a felicidade: melhorar a nossa vida actual, e
assegurar-nos um renascimento feliz na vida futura.
A felicidade entrega-se àquele que venceu o seu medo de viver, e que
considera a sua vida como uma centelha sagrada, na longa continuidade das
idades.
Dá felicidade, mas não peças aos outros que te retribuam.
Há felicidades efémeras, rápidas, apaixonadas, que passam e deixam um
gosto de cinza na boca, uma impressão de tristeza definitiva. Há também a
felicidade eterna, que não passa, e fica em nós como uma lâmpada acesa. Nunca
deixou de existir, desde o começo do mundo. Para a descobrir, basta descer em
si próprio.
Tens medo de perder o que possuis, e não és feliz. Aprende a renunciar,
no interior de ti próprio, sem deixar de desejar. Desprende-te e aproxima-te
das coisas, simultaneamente. É uma das chaves da Libertação. Aceita perder o
que possuis, se queres guardá-lo muito tempo.
Aprende a brincar, na tua vida quotidiana, como as crianças e os monges
do vale de Tsangpo.
Não temos outro deus senão a Alegria, cuja suprema nascente está em cada
um de nós. Torna-te o encantador, o mágico que transforma a vida. Surpreende os
teus amigos, espanta-os, tece em volta deles um cenário de teatro. Esta
ligeireza perfuma a vida. Ela dá às tuas atitudes de adulto um carácter
sobrenatural, lendário. Não tenhas medo de desejar a vida pela sua beleza,
pelos seus milagres como um enamorado, um adorador.
Nós temos a liberdade de amar, de escolher. Não és tu que decides, com
as tuas angústias e as tuas contradições, mas a vida soberana que está em ti,
aquela a quem os lamas chamam a Grande Deusa.
A felicidade é primeiramente uma disposição de espírito, uma maneira
diferente de olhar para o mundo. Chega até nós porque nós a desejámos
apaixonadamente, segundo a lei de atracção e de harmonia que rege o universo.
Pensa e age sempre a partir do instante. O poder da vida não flutua no
passado nem no futuro, que não são senão visões do espírito. Incarna-se no
Instante. É no instante que descobrirás o poder da vida, não a sonhar sobre o
passado ou o futuro.
O pensamento confuso, complicado, é a fonte de todos os sofrimentos.
Torna a encontrar a simplicidade e a transparência do coração.
A felicidade não é um paraíso quimérico. inacessível. Ela é a sombra
luminosa de ti próprio, o refúgio dourado, o jardim tranqüilo em que os
adversários são reconciliados.
Tem cautela com a memória. Ela é como um castelo ensombrado, cheio de
velhas lembranças que não se querem ir embora. Torna-te caçador de espectros.
Torna a tua consciência clara e luminosa, sem sombra, sem imagem. Não deixes o
passado encher-te em demasia, não te preocupes com o futuro, pois é no instante
que o mundo se cria. O resto não existe.
Lembra-te. A compaixão é uma das formas silenciosas da felicidade. Ela
permite que tu possas tecer laços de outro, entre ti e os outros, que dês à tua
alegria maiores e mais vastos horizontes. A felicidade não aprisiona. Liberta.
Para aquele que sabe ver, cada instante da vida é uma ilha de
felicidade. Basta parar nele, não se deixar levar pelo turbilhão das
tempestades, o rumor do mundo.
Constrói uma ilha para ti e para aqueles a quem amas, um templo, uma
fortaleza inexpugnável... mas deixa a tua porta aberta dia e noite.
Vira-te e olha para o caminho percorrido. Não te assustes. Recolhe
sempre o fruto da experiência passada, e aumenta assim o teu tesouro.
Não procures lutar, compreender, analisar. Como a criança, perde-te na
Alegria.
Se queres ser feliz, renuncia à agitação inútil, às palavras vãs, à
precipitação que não é senão uma fuga desgraçada. Pára, acalma o teu espírito,
escuta-te viver.
A felicidade e o amor são inseparáveis. Uma não brilha sem o outro. Para
ser feliz, aprende primeiro a amar.
Escolhe os teus amigos pela qualidade das suas almas, mesmo que eles não
partilhem as tuas aspirações, os teus projectos. Não fiques sozinho. Precisas
de uma família humana maior, para abrir o teu coração e libertar-te.
Considera-os como irmãos e irmãs, com os quais partilhas um segredo.
A amizade permite avançar mais depressa na via da Libertação. Amigos que
se conhecem bem olham uns para os outros e avaliam-se no mesmo espelho, sem
nunca deixar de se amar. Um é o espelho fiel do outro.
Fica à escuta dos teus amigos, atento, disponível, como deve estar um
irmão, um confidente - então eles formarão à tua volta um círculo mágico, um
mandala protector.
Os verdadeiros amigos não se embaraçam de palavras inúteis. Podem
comunicar por silêncios, sonhos premonitórios, intuições. É a luz do coração
que os junta.
Aquele que toma consciência da amizade deixa de estar só. Torna-se no
outro, e tece com ele uma rede de trocas subtis. Não procura modificar, nem
fazer partilhar os seus gostos, os seus desejos. Ainda não. Contenta-se em ser.
Permanece à beira do amigo como o eremita à beira do lago. Reencontra a sua
própria imagem, no mistério do outro.
A amizade é um refúgio, uma comunidade sagrada, fraterna. É um dos
"refúgios preciosos" de que falam os diferentes Budas. No tumulto do
mundo moderno, o homem e a mulher devem encontrar refúgio. Quando se encontrou
refúgio, os problemas desaparecem como um vôo de pássaros perturbados pela
pedra de uma fisga. Perdem o seu peso, e põem-se a dançar.
Precisarias da força ascética do eremita, do mestre de sabedoria, para
te libertar a ti próprio da cegueira e da ilusão. Hoje, o homem moderno não
pode fazer nada sem a ajuda dos outros. Não vive nas solidões do Tibete, fora
do mundo, protegido dos profanos pelo recinto sagrado do mosteiro. É o diálogo,
a partilha, a reciprocidade que nos libertam, e nos trazem de novo à nascente
Única, comum a todos os seres.
A amizade permite romper o círculo, sair de si e ir ao encontro do
outro. É um acto de libertação que ilumina a parte mais bela de nós próprios.
Ultrapassa os egoísmos e as friezas. Deves encarar o encontro entre dois amigos
como um milagre no caminho, de uma maneira livre, desinteressada, despojada de
inveja e do desejo de posse. Então, a amizade tornar-se-á uma experiência
interior.
Indo ter com os outros, descobres-te a ti próprio. Tornas-te vulnerável,
sem protecção. É nessa altura que o coração começa a brilhar.
A amizade faz nascer novos sóis. Ela celebra a grande bondade do
universo, a sua plenitude e a sua alegria constante.
Não hesites em confiar aos teus amigos os teus sonhos, os teus desejos,
as tuas hesitações, a fim de os tornar visíveis e de os ultrapassar. Não há
amizade sem esforço, nem combate interior.
Considera a amizade como uma cerimónia feliz, uma dança, uma festa em
que as diferenças não se combatem, não se aniquilam. As personalidades brilham
com o mesmo fogo, sem perder a sua particularidade, a sua identidade.
Aprende a viver em paz com os teus amigos, a ultrapassar as futilidades,
os problemas de amor-próprio que geram os conflitos, e que vêm dos teus medos,
das tuas angústias. Considera a amizade como a parte secreta de ti próprio, ela
esclarecer-te-á sobre o teu próprio espírito.
A amizade é como o perfume das flores. Derrama o seu aroma sobre aquele
que está em sua presença. Não procures cortá-la, desenraizá-la, para levar
ciosamente para a tua casa. Farias com que morresse.
O amigo vem quando precisas dele, ou deixa-te debater com os teus
problemas e os teus sofrimentos? Não cultives essa exigência egoísta,
tresloucada, que não é senão um capricho passional. O amigo só virá ter contigo
se tu souberes ir ter com ele.
A amizade não se avalia, não se mede. Deixa-a viver livremente, como o
vento, como a chama, e nunca mais a perderás.
O amigo não é o supremo curandeiro, o salvador todo-poderoso, que possui
a chave da felicidade. Ele não é senão o reflexo enriquecido de ti próprio.
Traz-te de novo o que perdeste.
A partilha não divide. Pelo contrário, reúne o que foi separado,
dividido. Sai-se de si próprio para ir ao encontro de outros, com benevolência,
contentamento e modéstia. Reencontra essa humildade alegre, animada pelo desejo
de servir o mundo. É a ti próprio que receberás em partilha, a tua realidade
profunda, em acordo com a realidade harmoniosa do universo.
O sol do meio-dia, na sua alegria, a sua apoteose, brilha para toda a
gente. Distribui prodigamente as suas riquezas. Mantém-te no zénite da tua
vida, e serás inesgotável, para ti e para os outros.
Não é necessário ter um domínio total de si, um conhecimento profundo do
coração, para dar aos outros. O dom mantém-se na superfície dos lábios, ao
virar de um gesto. É fácil de levar. Cresce na inocência e na luz. Partilhar, é
multiplicar as ocasiões de felicidade.
A alegria não é uma paixão humana, violenta, que se instala por um breve
instante e desaparece imediatamente. Ela é a sabedoria inerente ao ser humano,
a luz do coração, o seu cintilar na vida de todos os dias.
A vida afirma-se numa alegria constante que reconcilia os adversários,
aproxima os amantes, os amigos, numa mesma liberdade. A alegria é um estado de
perfeita aceitação, de renúncia a si próprio e de abandono aos outros.
Encontramo-nos de repente cheios, para além dos nossos próprios limites
humanos.
Não rejeites o humor. Ele impede o envelhecimento do corpo e do coração.
Sem humor, a felicidade não dá frutos. É como uma árvore sem pássaros que está
virada para o inverno.
Quando é partilhada, a alegria nunca fica diminuída. Renova-se
constantemente no outro.
Deves libertar-te da arrogância e da falta de amor, se quiseres ser
feliz. Não te isoles, não reforces o teu egoísmo, mas caminha ao encontro dos
outros, de mãos abertas.
A alegria é uma fonte de juventude eterna.
Se guardares a tua felicidade só para ti, acabará por te abafar.
Comunica-a aos outros, àqueles que amas, aos teus próximos, e vê-la-ás florir.
Vira os teus olhos para a simplicidade natural do mundo: o céu, a luz do
sol, as árvores, as flores e os risos das crianças. Liberta-te dos fardos
pesados. Torna-te de novo leve e puro como um céu de montanha.
O amor que pára na superfície das coisas está condenado a debilitar-se,
a morrer. É como a árvore sem raiz, prometida ao machado do lenhador.
Toma prazer em viver, e a vida tomar-te-á a seu cargo.
Como dar o que não se possui? Aprende a amar-te a ti mesmo, se quiseres
ver brilhar o universo nos olhos dos outros.
Deves evitar as disputas e os conflitos que obscurecem o coração. Eles
preparam o terreno ao sofrimento e à solidão.
O facto de dar e de receber vem do coração e volta para lá livremente. A
alegria está aí onde estás. Ela nunca é exterior a ti. Só há um lugar, ao mesmo
tempo fonte de saúde, de abundância, de encantamento, e esse lugar está em ti.
Aprende a amar aqueles que não são parecidos contigo, que parecem
diferentes, afastados da tua cultura, da tua história. Eles são os outros
espelhos de ti próprio. Sem eles, não tens senão uma imagem incompleta da
felicidade. Não estás realmente reconciliado contigo próprio.
Não te apegues aos resultados, nem nunca limites os teus desejos, se
quiseres conhecer a alegria.
Cultiva em ti o desejo de ser feliz, apesar das hesitações e dos
obstáculos. Não recuses o combate contra ti próprio. Deves aprender a pacificar
os teus humores e as tuas paixões, se quiseres ser feliz.
No instante presente em que o sol se esconde, a vida acende-se no
interior.
Não julgues o que é feliz ou infeliz, luminoso ou obscuro. Deves fazer
calar essas divisões absurdas e reencontrar a unidade do coração, a plenitude
alegre. Acende em ti um sol que não se apaga.
Quando se ama com verdadeiro amor, a presença do ser amado é ressentida
ao mesmo tempo como um sofrimento e como um prazer. É o duplo combate da sombra
e da luz. Uma ameaça acrescenta-se à tua alegria, um sombrio pressentimento de
fracasso que te torna infeliz. Considera a alegria e a tristeza como as duas
cores de um mesmo ramo. Que uma não se erga contra a outra, e o teu amor será
salvo.
A experiência amorosa recomeça o mundo, em cada instante.
O amor é antes de mais nada um dom de Deus, antes de ser centelha e
desejo no coração do homem. Ele junta o que foi separado: a alegria e a dor, a
recordação e o esquecimento, o nascimento e a morte. Ele é o grande libertador.
O amor não tira nada. Dá.
A posse impede a paz da alma. É o reflexo destruidor que gera o
sofrimento.
O amor que tu não podes atingir, brilha fora de ti, e a sua luz
parece-te inacessível. Considera-o como uma estrela longínqua, que não brilha
senão para ti. É assim que ele se há-de aproximar.
Julgamo-nos indignos do amor, e esse sentimento negativo impede-nos de
viver. Considera que no amor não há nem vencedor nem vencido. Somente a vida
triunfa.
O amor é uma fusão das almas para além do corpo, mesmo se o corpo
participa nela ardentemente, apaixonadamente. Ele compromete para além de si
próprio, arranca-nos das nossas certezas, das nossas crenças, e coloca-nos numa
clareira pacífica que se parece com a eternidade.
Sentes amor por alguém? Esse amor não é correspondido? Não abandones,
não te desvies. Se os teus pensamentos vêm do coração, sem animosidade, sem
violência, novos e belos apesar do teu despeito, do teu desânimo, então o
coração do outro será atingido.
O amor torna-nos eternamente ricos.
Não há amor sem renúncia, sem abertura do coração. Não esperes pelo
amor. Vai ao seu encontro.
Interroga-te acerca das tuas verdadeiras razões de amar, antes de acusar
os outros. Somos muitas vezes, infelizmente, a causa das nossas próprias
desgraças. Ilumina as tuas motivações profundas e regressarás trazendo uma nova
riqueza.
Todo o ser humano é digno do amor. Acolhe-o com simplicidade, como
acolherias o céu, o sol, ou o movimento das nuvens. Aprende a leveza no amor,
sem ficar assustado com a sua profundidade.
A confiança e o respeito mútuos são os pilares do amor. Transcendem as
rivalidades e os egoísmos. Para amar, renuncia às tuas protecções, abandona as
tuas trincheiras, e entrega-te na nudez do coração.
Não podes amar o outro senão amando-te a ti próprio.
A partir de hoje decide-te por um género de vida diferente. Não deixes
instalar-se o imobilismo e o envelhecimento na tua relação amorosa. Opõe-lhes a
espontaneidade, a energia juvenil, emoções novas e sonhos novos. A dúvida e o
tédio envenenam muitas vezes o amor. Redobra a tua vigilância.
Mantém aceso o amor em permanência como um fogo, com perfumes, cores,
música. Cultiva a sedução. Aprende a fazer brilhar os teus actos, os teus
pensamentos, os teus desejos. O amor precisa de luz para viver.
O amor não é exterior a ti, mesmo se o procuras para além de ti próprio.
Ele habita nos mistérios do teu coração. Perdeste simplesmente a chave.
O universo fica equilibrado quando as duas mãos se juntam.
Olha para cada pessoa que encontras como se ela te devesse trazer um
grande segredo.
O amor é uma grande força curativa.
No amor físico, cada um procura desesperadamente o outro. Não te
contentes com uma posse efémera do corpo, mas procura também a fusão do corpo e
do espírito, tomando consciência das tuas emoções, das tuas sensações. É assim
que os adeptos do tantrismo se unem à Grande Deusa. É assim que o amor é
libertador.
Se queres amar e ser amado, considera cada dia como excepcional.
Há um mistério do amor. Aqueles que se amam experimentam no seu coração
a força de atracção dos astros, a queimadura dos sóis, o começo e o fim dos
mundos. Eles morrem e renascem num mesmo corpo.
O amor é a outra vertente da solidão, o seu lado iluminado.
No amor físico, o céu voa espalhando o seu brilho, e tu participas no
enlaçamento dos mundos, na sua criação. A união do corpo e do coração abre uma
porta para a imensidão.
Alguns julgam que o desejo cai depois do acto amoroso, que ele comunica
um sentimento de tristeza, e nos afasta do outro. É um erro de visão. Aproveita
esse momento incomparável para meditar sobre as tuas sensações, e toma
consciência do que é realmente o repouso do corpo.
Por trás do acto amoroso, há as mãos calmas e transparentes do mundo.
Essa maneira de ver acorda os poderes do espírito. Medita sobre os
objectos mais usuais, para aprender o seu mistério. Essa mesa, sobre a qual te
apóias, contém uma miríade de universos. Ela não tem solidez. Bastar-te-á colar
a lente de um microscópio sobre a madeira da mesa para compreender o mundo de
outro modo. O olhar afunda-se até ao infinito, sem nunca encontrar o fim.
Aprende a conhecer os poderes do teu espírito, se quiseres conhecer os
mistérios da vida e da morte. Abre os teus olhos no interior. A chave está em
ti.
O teu espírito propõe-te a liberdade infinita de criar. Torna-te de novo
criador.
Observa o mundo de outro modo. Muda o teu olhar sobre as coisas.
A matéria está viva. Os micromundos existem. Há bolsas de realidade em
todo o lado na espessura da matéria. Aprende a ver os outros mundos.
O infinitamente pequeno é tão vasto como o infinitamente grande. Aliás,
não há fronteira entre eles. A única fronteira somos nós, a nossa maneira de
sentir, de receber.
Nós vivemos num oceano de vibrações, de cores, de imagens. O mundo
visível não é senão um aspecto, uma imagem, um instante do Movimento, como uma
onda no mar, ou uma dobra na trama infinita de um fato. Não há mundo, mas uma
multidão de mundos.
Aprende a ver o interior das coisas, com os olhos do espírito. Não
aceites a realidade superficial das coisas. Essa parede não é uma parede... mas
um conjunto de moléculas que rodopiam a uma velocidade louca, um mosaico de
vibrações que mexem, giram, se modificam constantemente.
Utiliza as potencialidades das visualizações. A forma, a imagem sobre a
qual meditas tornar-se-á realidade. Podes explorar as variações múltiplas do
universo. Tudo dependerá do género de mundo que tu quiseres ver aparecer. É um
jogo intenso, hipnótico, que nos faz viajar para longe, sem deixar o instante.
Se este mundo te aborrece, então muda de mundo.
Mudar de mundo, é mudar de consciência.
É preciso desaprender, e aprender de outro modo. No limite das tuas
percepções vive uma multidão de formas de vida levando uma existência paralela
à tua. Aceita o milagre dos outros mundos como uma realidade, tão verdadeira e
tão fugitiva como a tua realidade quotidiana.
Temos uma multitude de corpos, e apenas temos consciência do corpo
material.
Podes deslocar-te, passar de um corpo para outro. É como se habitasses
num apartamento de um imóvel de cinqüenta andares, sem saber que é possível
abrir uma porta, explorar as outras divisões, os outros andares. Retoma
consciência de ti mesmo. Explora os teus sonhos, os teus desejos, as tuas
sensações, até à vertigem.
Observa o mundo a partir do espírito, e vê-lo-ás abrir-se,
multiplicar-se, enriquecer-se. A sua profundidade é infinita. Pousa sobre o
mundo os olhos do mago e ele responder-te-á pelo encantamento dando-te amor.
Atrás da aparência das coisas, há estradas, passagens, que levam a outros
mundos, outros universos - isto é outros planos de realidades. Podes entrar
numa imagem ou numa música utilizando a meditação, isto é, a concentração do
espírito.
Não oponhas o visível e o invisível, o mundo material e o mundo do
espírito. Seria como afirmar que o gelo não é água.
Aprende que a forma não passa de uma ilusão. Nós isolamos as formas,
podemos designá-las, nomeá-las, sem saber que elas são as seqüências de um
ritmo eterno, como o movimento inconstante das ondas.
Tudo existe. A meditação abre a passagem, arranca vendas e mordaças,
desbloqueia portas e janelas, mostra-nos as outras paisagens e diz-nos: «Estais
lá. Deslocai-vos! Estais livres. Habitais todos os mundos!»
Existe um nível muito poderoso da meditação em que as diferenças e as
distâncias se fundem numa mesma corrente. Em estado de amor, de união total,
fervilham, dançam, vivem o resplendor dos universos, num só ritmo.
A nossa existência sobre a terra é rápida, ou lenta... Tudo depende do
observador. Na escala do universo, já estamos mortos. Se ainda estamos
presentes, é porque temos uma visão muito mais lenta do desenrolar das coisas.
Para acordar os poderes do espírito, compreende que não há nem passado
nem futuro. O universo vive e exprime-se no presente eterno. É preciso um
terceiro ouvido para o ouvir, ou uma terceira visão para o ver.
Treina o teu espírito para ver de modo diferente. A magnificência do
universo ser-te-á dada e o sol nunca mais se apagará.
As contingências da vida não são teus adversários, mas teus aliados.
Aprende a recebê-las, mesmo quando te transtornam. A aceitação é a forma mais
elevada de Amor. É o «sim» definitivo à experiência sagrada da vida.
Quando tu andas, abandona-te à estrada, com o espírito calmo, sem tensão
nem agitação. A marcha é regeneradora. Utiliza-a como uma meditação.
O corpo físico é uma prenda suprema que deves proteger e respeitar. É
chamado «corpo precioso» nos ensinamentos do Vajrayana. Toma consciência do
milagre da tua existência.
Pergunta-te a ti próprio: «Como posso ajudar os outros?». Reencontra o
dom da atenção e da afeição, então os outros crescerão contigo, e conhecerás a
alegria e a plenitude do coração.
Abandona-te ao amor, mesmo se não lhe conheceres a finalidade
misteriosa. Libertar-te-á do teu medo e cobrirá de sol todos os teus actos.
Aquele que encontrou o seu lugar é semelhante à árvore. Ganha raiz e não
se desloca mais.
Afirma positivamente o mundo nos teus actos e nos teus pensamentos.
Considera toda a criação com respeito e encantamento.
Felicidade do nómada: aquele que caminha enraíza-se a cada passo que dá.
Tem o seu lugar onde quer que se encontre. Renova o amor deslocando-se.
Aceita o mundo tal como é realmente e não como ele se apresenta.
A aceitação de si e a aceitação dos outros são as duas faces de uma
mesma moeda. A mesma riqueza.
Aprende a relaxar a tensão dos nervos, a controlar a respiração e o
bater do coração, a ver flutuar as sensações sem procurar retê-las. Treina-te
ao abandono do corpo e do espírito, se quiseres ganhar o mundo. Só se recebe o
que se aceita perder.
Abandonar não quer dizer esquecer, mas tornar presente, sem amarras nem
laços. É um acto de libertação. Afrouxam-se os laços, e o mundo que nos rodeia
deixa de estar deformado pelas nossas obsessões, os nossos fantasmas. Torna-se
de novo livre.
Não deves suportar a tua vida, mas levá-la. Só o amor é capaz de um tal
prodígio.
O relaxamento é uma das primeiras formas de abandono. O corpo deixa de
lutar contra a atracção terrestre. Abandona-te à gravitação, como o fazem todos
os astros e todos os corpos celestes.
Relaxar não quer dizer tomar repouso, isolar-te do tumulto ou do
barulho, mas acolher o mundo, preparar-se para o receber.
O desapego não é a supressão, a sepultura. Pede uma presença constante
no mundo, uma proximidade cada vez maior dos outros, sem intenção,
gratuitamente.
Em certas circunstâncias, a vida entrega-se a nós por surpresa, para nos
maravilhar. Surge por vezes onde menos se espera; em casa do estrangeiro, ou em
casa do teu inimigo. É preciso largar carga, para subir mais alto.
A aceitação oferece um risco muito maior do que o simples facto de amar.
Aquele que se abandona não se contenta apenas com amar. Dá-se a si próprio a
audácia de o fazer. Empenha-se numa grande aventura.
Aquele que abandona não renuncia. Aceita. O abandono não é um reflexo
egoísta, mas um dom de amor. Permite reencontrar os outros, autenticamente,
atrás das máscaras, do artifício e da ilusão.
Abandonar-se significa tornar-se livre.
Aprende a renunciar ao que embaraça e faz obstáculo, para melhor acolher
o outro. Retira tudo o que se opõe, protege, encerra - tudo o que pode ferir e
incomodar o encontro com o outro.
Não nos abandonamos para nos entrincheirar contra o mundo, mas para
acolher a alegria, no meio do mundo. Perdendo o inútil, reencontras o
essencial.
Abandonar-se ao mundo exige uma vigilância acerada, um olhar de águia
por cima do abismo. Aquele que se mantém constantemente em vigília deixa de
cair.
Se queres expulsar o medo, abre portas e janelas no interior de ti
próprio, faz entrar a luz, não deixes um recanto de sombra. Analise, escuta,
observa, desliga todas as possibilidades de conflitos, guardando um espírito
calmo, perfeitamente concentrado. Reencontra a audácia e a lucidez do
guerreiro: desde em ti e desenraíza o medo.
Cada vitória sobre ti próprio é como um nascer de sol. Ultrapassar o
medo, todos os medos, abre um horizonte ilimitado.
Compreende que o medo dos outros, que tu ressentes, é primeiramente o
medo de ti próprio. Um ser pacificador, que ultrapassou as suas angústias, vai
ter com os outros com serenidade.
Mantém o teu espírito permanentemente na alegria do instante e o medo
ficará derrubado. Nenhuma noite é bastante longa e obscura para impedir a
alvorada.
Os medos, as inquietações, as angústias, traduzem um medo mais profundo,
que é o da morte. É o Grande Medo que atormenta o homem desde a noite dos
tempos. Aprende a morrer todos os dias alegremente, sem perder o amor à vida, e
o teu medo será vencido.
Não temas a provação difícil, a lassidão, a perda da esperança. É quando
se toca o fundo que se pode olhar para as estrelas.
O medo alimenta-se das agitações do teu espírito. Observa os teus medos
sem intervir, sem tentar dominá-los ou combatê-los, e eles desaparecerão.
Aprende a conhecer-te, ilumina as zonas de sombra do teu espírito,
desmonta os mecanismos do pensamento que te fazem agir e reagir, e o medo
desaparecerá.
A coragem não pede uma demonstração heróica, pública, que toda a gente
veja, mas uma guerra secreta, no interior de si próprio. A coragem verifica-se
todos os dias, nos actos da vida corrente, lutando contra os hábitos, as
mentiras, os arranjos, os compromissos, que obscurecem o espírito e impedem a
sua libertação.
Torna-te o espectador do medo. Ele não te diz respeito. Não lhe dirijas
nenhum sinal. Observa-o sem intervir, desapegado do jogo.
Reencontra uma fé precisa e uma desesperada necessidade de acção. Que a
tua vida se torne uma busca, mesmo desajeitada. Querer ser feliz, do fundo da
sua desgraça, acende uma estrela no céu.
O espírito confuso, deformado pelo medo, reflecte o caos do mundo e as
suas contradições. O espírito liberto do medo reflecte a harmonia do mundo, a
sua unidade, a sua beleza. Tudo depende do teu olhar sobre ti próprio.
Contempla a tua natureza positiva, sob a máscara do medo e da
inquietação. Aprende a amar-te, a admirar-te, por trás das tuas fraquezas.
Reencontra o amor de ti próprio, e prodigaliza-o pelos outros.
O amor pede a maior coragem pois ele exige a vulnerabilidade, e o
abandono, que é o dom total de si.
Se queres pôr termo à violência, olha para o mundo como um ser único.
A cólera é uma das formas visíveis do medo. Na cólera, é o medo que nos
toma de surpresa.
Queres ser realmente livre? Reencontra a lucidez do coração e acende a
lâmpada do espírito.
A coragem pede uma resposta imediata, e não deixa nenhum lugar para a
reflexão, para a hesitação. Antes é que teria sido preciso reflectir. Chega um
momento em que é preciso agir e abandonar-se com toda a confiança. Muda-te a ti
próprio, e o mundo mudará.
Diante da doença, reencontra a coragem e a inocência dos conquistadores.
Enche-te de orgulho e de certeza, que a tua fé fique intacta, como a criança
que joga com aplicação. Aprende a crer e serás ouvido. A cura, o recuo da
doença dependem muitas vezes de uma certa disposição do espírito.
Não te habitues à derrota, como um jovem ancião que perdeu todas as suas
ilusões. Esse sentimento resseca a alma e aproxima-nos da morte.
Observa a natureza à tua volta, os insectos, os vegetais, não são como
um espectáculo imóvel, mas como um turbilhão de forças criadoras. Fecha os
olhos, e considera-te como o centro do turbilhão. Assim o teu coração e o
coração do mundo serão um só. Essa união comunica uma grande sabedoria.
Não tenhas medo das tuas fraquezas, dos teus maus pensamentos. Eles
existem para estimular a tua vontade, o teu desejo de vencer.
Estás demasiado apegado a ti próprio, e desse apego nascem o medo, a
agressividade, a necessidade de reter, de dissimular. Desliga-te das falsas
imagens de ti próprio. Aprende a renunciar, sem perder a tua natureza profunda.
Nunca abandones a ilha do coração.
Ter êxito exige um olhar lúcido sobre si próprio e sobre os outros,
assim como de uma vontade persuasiva, do desejo profundo de atingir uma meta.
Quando tu pensas no êxito, não o faças numa divagação nebulosa, sem paixão, sem
força. Considera-o com amor, acarinha-o, toma conta dele nos teus sonhos, no
teu coração. Então ele tornar-se-á visível.
O êxito é o fruto de um perfeito conhecimento de si próprio e dos mecanismos
do mundo. O êxito social fica frágil, ameaçado, se não tiver as suas raízes no
êxito interior.
Realizar plenamente a sua vida, é, em primeiro lugar, conseguir a paz
consigo próprio, sem perder o gosto e o fervor de viver.
O que tu perdes, tornas sempre a encontrá-lo, mas de um modo diferente.
Cultiva a paciência e as coisas virão ter contigo.
Aceita a provação. Na vida tudo te será dado: o medo, a felicidade, a
dor, as angústias, a alegria, os sorrisos...
Reconhece o valor do outro, se queres progredir.
Os obstáculos que te impedem de avançar não são definitivos. Olha para
eles de modo diferente e hás-de vê-los mudar.
O êxito é relativo. É feito ao mesmo tempo de ouro e de simplicidade.
Aprende a olhar para uma flor com espanto, e poderás subir aos mais altos
cumes.
Basta uma meditação de alguns minutos, cada dia, para que a vida fique
transformada. Deves ter cada dia um pensamento feliz para toda a criação, e a
alegria ser-te-á dada.
Não edifiques de uma maneira frenética, turbulenta. Enraíza a tua
construção, dá-lhe raízes profundas. Não esqueças que toda a criação vem do
coração e volta para ele. Nunca edifiques fora do amor e do desejo de servir o
mundo, se queres realizar em plenitude a tua vida.
Sem realização espiritual, não haverá êxito, seja qual for o nível da
tua vida. Realizar plenamente a sua vida, é reencontrar em si a perfeição do
universo.
O êxito pessoal está ligado ao êxito dos outros. Nenhum sol brilha
sozinho no universo. Tudo está ligado de modo irremediável, como os membros de
um corpo.
Não se triunfa à custa dos outros, sem que eles o saibam, mas
partilhando com eles uma maravilhosa aventura comum. O que está separado,
desligado, acabará por se apagar e morrer. Somente o amor salva o mundo, e o
impede de se destruir, de regressar ao nada.
Não tenhas em conta os ganhos da vitória. Tornam o espírito pesado e
envenenam-no. Aprecia-os com respeito e humor, como os sinais da tua
realização. São apenas elementos secundários na tua progressão. Sinais,
iluminando o teu caminho.
Realizar-se em plenitude exige uma grande renúncia. Aquele que se apega
aos frutos das suas obras deixa de progredir. Dá-se então conta de que está
preso, paralisado pela sua própria criação. Desprende-te pela meditação, sem
renunciar às tuas obras.
Deixa de acumular, se queres realizar plenamente a tua vida. O
açambarcamento material não passa de uma paródia da felicidade.
Divide o espírito e torna-o pesado. Torna-te de novo leve.
Não se ganha uma corrida para si próprio, mas para se ser amado pelos
outros e merecer o seu respeito. Não consideres o êxito pessoal como uma
façanha egoísta. Ele deve aproximar-te dos outros, da sua fraternidade.
O fracasso abre por vezes os olhos do coração. Nele vemo-nos nus, sem
protecção, frágeis e doentes - isto é, sinceros e humanos, libertos dos
artifícios, das falsas protecções, que de nada serviram. O fracasso
compreendido, profundamente meditado, pode tornar-se no primeiro degrau do
êxito.
A elevação social do homem deve estar desprovida de orgulho e de
arrogância, se ela quiser realizar plenamente a vida, e fazer de cada acção -
por mínima que seja — um esplendor irradiante.
Realizar-se sem destruir os outros, é participar nas leis de harmonia do
universo.
Aquele que amontoa egoisticamente, que se esquece de redistribuir uma
parte dos seus ganhos pelos outros, torna a terra estéril, e impede as próximas
colheitas. Ter êxito, não é ganhar para acumular, mas dar para melhor receber.
Nós crescemos para construir, para dar à luz, para realizar a vida, e
não para destruir, para suprimir ou diminuir. A vontade, a lucidez e o amor são
as três chaves de ouro do êxito.
Aprende a meter-te na pele dos outros. Deves pôr-te no lugar deles,
experimentar as suas sensações, as suas emoções, para compreender realmente
quem eles são e de que maneira reagem. Então, os teus parceiros sociais já não
serão adversários, mas aliados, cúmplices.
Aprende a trabalhar para ti próprio e para a beleza do mundo. Reencontra
o entusiasmo dos exploradores, dos construtores de impérios, que visam a mais
longínqua linha de horizontes para cumprir as suas obras. A cada instante da
tua vida, reencontra a alegria das grandes partidas.
Sem audácia, nenhum projecto é realizável.
Triunfar é antes de mais fazer-se amar pelos outros.
Nas provações difíceis, vira-te para o teu próprio coração, toma refúgio
em ti, e sobe mais uma vez à superfície com novas forças.
O êxito do homem de sabedoria não é um edifício efémero, destinado a ser
destruído. É como uma ponte, um ponto de passagem entre dois mundos. Todos os
êxitos humanos não são senão uma preparação para a passagem, para a mudança do
mundo. Deves conseguir a travessia. É assim que o adepto se torna um buda, um
iluminado. A vida é o caminho duro que leva até lá.
Não tenhas medo de pedir muito à sorte, às circunstâncias da vida e aos
deuses protectores, segundo as tuas crenças.
Tu és lúcido e conheces a brevidade da vida entre o nascimento e a
morte.
Aproveita-a. Utiliza a vida como uma via rápida para atingir a
Sabedoria.
Não percas tempo. A tua vida começa hoje.
No teu caminho, não existe outro adversário que não sejas tu. Não ganhes
o hábito desastroso de dividir o mundo em "amigos" e
"inimigos". Que todos os teus actos sejam virados para a alegria e a
paz. O único guerreiro que vale a pena é aquele do combate interior. Pois este
é o único combate digno do homem.
Quando se apóia no orgulho, o êxito nunca dura muito tempo. Devora-se a
si próprio e arrasta o homem na sua queda. Engole-o como o faria um monstro
mitológico.
O trabalho bem feito é, ao mesmo tempo, acção e meditação. Uma vez
terminado, não fica exterior a ti, desligado, como ficam demasiadas realizações
humanas. Mantém-se na luz do coração.
Trabalha sempre pensando na alegria dos outros. Não triunfes para ti,
mas para aqueles que te estão próximos. A alegria deles será a coroa de ouro do
teu êxito.
O paradoxo do sábio: para viver livre é preciso saber-se mortal, e para
se saber mortal, é preciso ter tomado plena consciência da sua imortalidade.
Deves saber que a morte dura alguns segundos para os familiares e amigos
que dão assistência ao moribundo... Para este último, a viagem dura várias
vidas, que ele atravessa em tempo real. Nessas vidas, ele pode reencontrar
aqueles que ama em formas diferentes. Saberá reconhecê-los. Ele vai morrer
muitas vezes ainda, elevar-se sempre até essa misteriosa Clara-luz que eles
chamam Deus, e que é a substância vazia e eterna do universo.
Desconfia dos pensamentos negativos, pois eles se atracam ao corpo e ao
espírito. São os primeiros sintomas do mal. Treina-te a pensar positivamente,
mesmo nas provações da vida.
Não deixes a doença conquistar terreno. Instala pensamentos felizes à
tua volta, como outras tantas linhas defensivas.
A chegada da doença coincide sempre com uma falta de confiança, um
relaxamento do espírito. Compraz-se na angústia, na dúvida e na confusão. Não a
deixes governar a tua alma e o teu coração. Considera-a como um inimigo
exterior, dissimulado e astuto, que avança encapotado, aproveitando a escuridão
para agir.
A doença não resiste às muito altas luzes do espírito. Cultiva o
sentimento de amor, de beleza, de compaixão, para purificar o teu espírito e o
teu corpo, reparar o que foi quebrado, eliminar as forças negativas, e trazer
de novo a harmonia.
Se queres viver feliz, aprende a meditar sobre a tua própria morte. Ela
não é o fim da vida, mas o começo de um novo nascimento. A morte é uma porta.
A morte não é o fim da vida. Ela abre-se em nós a cada instante. É em
nós que ela tem as suas raízes. Utiliza a meditação para a encontrares e
fazeres dela a tua amiga.
A doença ergue-se no caminho, como uma falésia escarpada, um cimo que é
preciso vencer. Não fiques passivo. Há em ti forças novas, inesgotáveis. Para
ajudar a cura, pede o socorro do teu próprio espírito, imenso, infinito, fonte
de toda a sabedoria.
Os pensamentos negativos, o medo, a dúvida, são aliados tácticos da
doença. Aprende a combatê-los. Opõe-lhes a confiança, a certeza e o amor da
vida. Não esqueças nunca que o amor é o curandeiro supremo.
Aborda a doença com lucidez, apesar da tua inquietação, e ela
ensinar-te-á muito acerca de ti próprio.
Se sofres, medita profundamente sobre o sofrimento. Localiza-o. Tenta
senti-lo no exterior do teu corpo deslocando a tua consciência. Torna-te o
espectador atento e desprendido do jogo, como se aquilo que sofre não te
pertencesse — depois desliga-te dele.
Considera o sofrimento como uma mensagem inscrita na tua carne. Ele não
tem outro objectivo, outra intenção senão a tua perfeição, a tua realização
pessoal. Aprende a ler, depois deita fora o livro. Atrás do sofrimento está a
vida radiosa, cintilante, sem a qual não há liberdade.
Pega na mão do moribundo, não o deixes só na hora da morte, acompanha-o
na sua difícil travessia.
O segredo da doença: aproveita uma falta de vigilância, o obscurecimento
do espírito, a ausência de luz, para invadir o corpo.
Compenetra-te de que cada mau pensamento enfraquece a determinação,
entrava a vontade, abre uma brecha, e prepara o terreno para a doença.
Aos moribundos, nunca é demasiado tarde para transmitir palavras de
sabedoria.
O amor não repele a morte. Pede um verdadeiro dom de si próprio, uma
participação fraterna na morte do outro. Falar todos os dias a uma pessoa em
coma pode ajudá-la a morrer. Uma relação telepática estabelece-se então, de
coração para coração, que permite vencer as dificuldades da passagem.
Nunca é tarde para aprender a morrer.
Não observes a morte através da lupa deformadora das crenças, das
obsessões, das superstições. É-nos difícil compreender que no momento da morte
surgimos no Instante, e que não há outro instante no mundo. Pela morte saímos
do tempo.
Aprende que não há nem começo nem fim do mundo. Não há evolução nem
progressão através do tempo. Esta é uma maneira errada de ver. O universo é
instantâneo. Nunca deixa o instante. Nós nunca deixamos o instante.
A morte leva-nos de novo para o Presente eterno do mundo, que os
Tibetanos chamam Clara-luz, para o começo que não acaba.
O que é que não muda e que a morte reencontra? A luz do Ser, o sol da
Origem. Enquanto não aceitares a morte, ficarás incompleto, privado da tua
natureza profunda, da tua consciência eterna. O medo de viver e o medo de
morrer tornam a felicidade impossível.
Na morte, estamos no coração de nós próprios, mas, ao mesmo tempo — e é
a mesma coisa —, estamos no coração do universo.
Liberta-te das superstições que obstruem o teu espírito. Quando se
morre, não se regressa no corpo de um animal para aí ficar sujeito a um pesado
castigo, nem no de um sábio ou de um vigilante, se tivermos sido virtuosos.
Não tenhas medo da morte. Caçadores da morte, sabemos onde devemos
encontrá-la. No instante. No coração do instante. No seu centro. Como a pérola
de ouro que os antigos situavam no centro do mundo. O seu lugar é em ti. Não o
encontrarás em nenhum outro sítio senão em ti.
A morte não existe. Vencer a morte, é mudar de mundo e pôr-se a viajar.
Medita nesta visão: tudo se passa no mesmo lugar, no mesmo tempo, no
mesmo instante — o nascimento e a morte.
Acolhe a morte como uma amiga, e a vida aparecer-te-á em todo o seu
esplendor. Todos os teus medos desaparecerão. Poderás daí em diante viver sem
receio nem agressividade, dormir como uma criança, libertar-te das tensões do
mundo, abrir-te á alegria, e chegar aos planos superiores de existência.
Os mestres da sabedoria ensinam que a morte e o nascimento são uma porta
única, que nunca se fecha. A morte, tal como a concebemos, não existe.
Todas as fases sucessivas da morte são as fases do começo da vida. Eis a
razão pela qual o traumatismo da morte está irremediavelmente ligado ao
traumatismo do nascimento, e pela qual os místicos e os vigilantes falam dum
"novo nascimento". Pressentem que, no instante da morte, a origem e o
fim se confundem.
De onde vimos? Se soubermos a resposta, saberemos para onde vamos, no
termo final da existência.
Aprende que o estado divino não é somente o do pós-morte... é também o
de antes do nascimento. O mesmo. A mesma presença aberta, nunca desaparecida,
que trazemos em nós sob a forma de vertigem, de abismo.
Força do acordar: na morte, alguns esquecem, e outros lembram-se.
Em cada dia, conta com a morte, a fim de que, quando o seu tempo vier,
morras em paz. Aprende a morrer em pensamento todos os dias, e já não terás
receio de morrer.
Não esperes pelo momento da morte para aprender a conhecê-la. Será
demasiado tarde.
O território da morte não está depois da vida. Está simultaneamente
antes e depois, em cima e em baixo. Aprende a ver de outra maneira.
A morte está separada da vida. Considera a tua vida e a morte como o
pleno e o vazio de um mesmo objecto.
Não existe o mundo dos vivos e, na outra margem, o mundo dos mortos.
Trata-se de um mesmo estado do ser, esquecido, ao qual já não temos acesso. A
morte leva-nos de novo ao Presente eterno do mundo, ao seu começo que não
acaba.
A morte envia-te sinais — sonhos, obsessões, encontros, visões. Aprende
a decifrá-los. É assim que ela se faz conhecer. Habitua-te à morte, e a
amargura tornar-se-á doçura.
O que é que não muda, e que a morte reencontra? A luz do Ser — a da Origem.
A meditação permite-te ouvir a palavra do silêncio, discernir a sua
Clara-luz, no interior de ti. Essa visão não será possível se estiveres numa
atitude sonolenta, que provoca o devaneio. Senta-te para meditar, com o busto
direito, como uma árvore, com os olhos fechados, na posição do vigilante.
Observa muito longe em ti, sem afrouxar a tua atenção, com o espírito
vazio, evitando o movimento dos pensamentos. É a atitude do guerreiro
espiritual, do Acordado.
Nenhum pensamento está, na realidade, completamente isolado. O
verdadeiro espaço está no interior. O que se passa no espírito repercute-se em
todo o universo.
A vida é uma disciplina que se conjuga no presente. Realiza cada acto
plenamente. Não te interesses senão pela vida, em todas as suas formas, pois
ninguém sairá vivo desse jogo.
Não tenhas medo da solidão quando ela vem ao teu encontro. Ela é a
ocasião de te reencontrar e de te fortificar.
Aprende primeiro a acalmar o teu espírito e a relaxar o teu corpo,
depois desce em ti, como o mergulhador. Não tenhas medo de conhecer a plenitude
e a completa vacuidade. Só tens uma vida, mas é infinita. Com a meditação,
entras naquilo que não pode ser nem dividido nem separado.
Muda de ponto de vista para guardar distanciamento. Desconfia das
paixões, ganha recuo recolhendo-te.
A meditação aproxima-te do centro de ti próprio, logo que fechas os
olhos. Não está ligada ao curso do pensamento, nem ao jogo fantasmagórico das
emoções. Aprende a calar-te e o teu coração abrir-se-á.
A origem das coisas não está situada no passado. Produz-se agora, em
cada instante, no teu espírito. Aprende a pensar de outra maneira.
Podes utilizar um sonho, uma recordação, como suporte para a tua
meditação. Não analises, não reflictas. Contenta-te em observar, sem palavra,
sem pensamento, como o animal fascinado observa o fogo. Transforma os teus
desejos, as tuas sensações, em energia pura. Considera-os como pedras
preciosas, que brilham desligadas de ti.
A meditação transforma a crença em realidade vivida. Utiliza o seu poder,
se queres mudar o mundo.
Não é necessário que medites sobre os mandalas nem sobre as figuras
tradicionais do Vajrayana. Toma o teu próprio desejo como objecto da tua
meditação. Observa-o, de longe, sem perder o encantamento, e segue-o como se
sobe um rio, até à sua nascente. Ele é a chave que abre todas as portas.
Aprende o poder de amor da meditação: ela abre o coração e faz nele
penetrar o universo inteiro. Reúne o que foi separado pela ilusão. Eis-te
imerso no fluxo da vida e deslizando com ele.
Aprende também a meditar com os olhos abertos. Concentra-te na beleza de
uma flor, no murmúrio das ondas, no barulho do vento. Suprime a distância que
te separa das coisas. Meditar é um acto de amor.
Cada paixão dominada acende um novo sol.
Toma refúgio muito longe em ti próprio, se queres encontrar os outros.
Se estás infeliz e num estado de caos interior, não acuses o mundo pois
ele não é senão o reflexo de ti próprio. O que tu és, o mundo é-o também.
Cura-te e o mundo curar-se-á.
Deves derrubar os teus hábitos de pensamento. Desce em ti, com o
espírito livre, consciente da tua própria divindade, à maneira de um espelho
que reflecte o sol.
Medita por entre o tumulto da vida quotidiana, no meio dos
engarrafamentos, andando na rua. Descondiciona-te. Toma de repente altitude, e
considera o espectáculo do mundo como um fluxo eterno, sem começo nem fim.
Estás no centro, o único ponto fixo, com a tua consciência, as tuas sensações,
as tuas reflexões. Meditar assim renova a energia, e evita a lassidão.
Meditar, é renunciar ao universo conhecido e descer aos bastidores, aí
onde o espírito puxa os cordéis do jogo. É tornar a ser o grande maquinista, o
criador do universo.
A meditação começa sempre por uma total descontracção do corpo físico,
que elimina as tensões. Aprende a respirar, isto é, a tornar vivos os
mecanismos habituais do corpo.
Reúne os teus pensamentos no centro de ti próprio, e impede-os de
derivar. Visualiza esse centro como sendo a única realidade, se queres que a
tua meditação se torne numa arma que desperta.
Nós não temos nenhuma consciência de nós próprios, é por isso que o
menor choque exterior nos surpreende e perturba. Reencontra o domínio interior,
sem perder a inocência do olhar, e a bondade do coração.
A meditação permite-te ocupar realmente o teu lugar, reencontrar o
equilíbrio e a harmonia. Ela é a via real que leva à felicidade, o caminho mais
curto, pois evita os maus hábitos do exterior, os artifícios, as ilusões.
Considera o teu espírito como o templo de ouro, que contém todo o
universo.
A meditação permite reunir as energias, evitando a dispersão e o
desperdício. Orientando os teus pensamentos para os outros, podes curar os que
sofrem, vir em auxílio dos desgraçados e fazer muito bem. A meditação acorda os
poderes do espírito.
Se queres deslocar-te e aproximar-te de alguém, podes utilizar o poder
todo-poderoso do pensamento. Visualiza o lugar que queres atingir, reunindo as
tuas emoções, os teus desejos, sem te perder em vagos devaneios. Para isso, não
deves deixar o teu espírito vagabundear, mas, pelo contrário, torna a trazê-lo
para o centro de ti próprio, pela meditação, sem nunca perder a consciência do
Instante.
Durante a tua meditação, deixa flutuar as idéias e as sensações
vagabundas, sem procurar retê-las. Deixa o vazio invadir o teu espírito, e
ressentirás um calor maravilhoso, assim como uma imensa alegria. Será então que
a distância entre ti e o mundo há-de desaparecer. Estás no lugar do espírito
que reúne todas as coisas. A partir deste lugar, podes agir sobre ti próprio e
sobre o mundo.
Descobre a profundidade da meditação, e encontrarás a imediatitude do
mundo. Os mestres de sabedoria ensinam que esse instante é a única realidade.
Dele nascem os universos e os mundos.
Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um desconhecimento de si,
que gera dor e confusão. Não duvides do teu próprio esplendor interior. Cada
ser vivo é uma estrela.
Não há passado nem futuro. O que tu fazes, é sempre feito aqui e agora.
O instante é o único lugar da experiência em que a vida pode ser agarrada,
experimentada, sentida. O passado e o futuro pertencem à fantasmagoria, e são
tão inconsistentes como os fumos do nevoeiro. Aprende a agir a partir do
instante, se quiseres mudar a tua vida.
A dificuldade não consiste em reflectir, mas em pensar em reflectir.
Começa por acolher sempre as ocasiões que se te oferecem.
Aceitando voluntariamente reflectir ganha-se o hábito de reflectir
espontaneamente.
Para agarrar o instante que passa, basta-te abrir o teu coração.
A alma interior é aquela que te dá, mesmo no meio da multidão, o poder
de estar a quilómetros de distância, em espírito. Ela possui a mais nobre e a
mais rara das independências.
Podes utilizar o instante como uma porta, e deslocar-te no tempo. Tudo é
possível. Reencontrar-se com a idade de cinco anos, num quarto de criança, ou
no pátio de uma escola, não é uma divagação pouco consistente, nostálgica.
Estás realmente nesse quarto de criança, nessa escola, isto é, no Presente
dessa época. É o segredo do Instante, a chave de ouro que abre todas as portas:
tudo se passa no mesmo lugar, no mesmo tempo, no mesmo momento. Estamos
realmente lá, e lá é aqui.
Os Tibetanos representam o instante como um vazio rodopiante, no centro
da roda da vida e da morte. Esse estado de ser nunca desaparece. Ele é a
permanência, o fundamento, e, no entanto, move-se constantemente, sem nunca
alterar a sua imobilidade irradiante.
O amor exige uma resposta de todos os instantes.
Onde estaremos todos dentro de um milhão de anos? Dentro de um milhão de
anos, tudo será mudado. Toda a história passa e repassa pelo mesmo ponto que é
o instante. Nós regressaremos sempre, não antes ou depois, mas no Instante que
é o misterioso território central do Ser.
Aprende a agarrar o instante. Não te desvies, não fujas para a
fantasmagoria do passado ou do futuro. Concentra o teu espírito, aí onde estás,
com uma consciência aguda do instante. Ele está no sítio onde estamos. Não há
outro lugar senão este aqui.
Liberta-te do passado e do futuro, mas fica atento ao instante que
passa. Só ele é real. Tudo o resto é fantasmagoria.
Quantos anos desperdiçaste, refugiando-te nos teus vagos devaneios? A
felicidade não espera. Ela dá-se aqui e agora.
Viver o instante presente exige uma grande atenção às coisas mais
simples.
Mantém-te disponível, livre dos teus preconceitos, das tuas crenças.
Reencontra a inocência do olhar, e a vontade de diamante do coração.
Então o instante não passará mais. Guardar-te-á na sua luz.
Se queres destruir o teu medo do tempo e da morte, visualiza a vida como
um círculo sem começo nem fim. Considera o instante presente como um ponto que
indica ao mesmo tempo o começo e o fim.
Queixas-te da incompreensão dos outros, da solidão e da falta de amor.
Não te imagines que amanhã tudo irá melhor. "Amanhã" não é senão uma
visão do espírito, não tem maior realidade do que um sonho. Aprende a agarrar o
instante. Todas as respostas te são dadas, em cada instante que vem. Não te
contentes com ficar na margem a observar a água que corre. Banha-te no rio.
O instante não é o limite. Se pudéssemos vivê-lo plenamente, saberíamos
o que é a eternidade, pois o presente é eterno.
Nós procedemos de "aqui" e este "aqui" nunca se
moveu.
Viver de acordo com a vida não se resume em seguir preceitos e ordens
rígidos, que abafam o coração, amarram violentamente as paixões. Essa é uma
visão errada da disciplina espiritual. Aprende a escutar o rumorejar do vento,
a pulsar do segundo que passa.
Torna a ser a criança surpreendida pela vida, e a vida encher-te-á das
suas bênçãos.
Não imagines que hás-de conhecer amanhã circunstâncias favoráveis, que
hão-de mudar a tua vida. Amanhã nunca vem socorrer aquele que sofre. Não há
outra realidade senão agora.
A simplicidade é a chave do presente. Dá acesso às maravilhosas
riquezas.
O que nós tomamos pela realidade não é sequer estável no universo. Em
cada segundo que passa, o mundo já não é o mesmo. Rodopios, emoções, células,
átomos, moléculas... Tudo se move, tudo muda.
Tudo se faz aqui e agora. Considera o instante como uma jóia pura, a
partir da qual tudo começa. Não existe outro lugar senão o instante. Na
experiência do instante, estamos realmente lá, e lá está sempre aqui.
Sê feliz agora. Não há outro lugar para amar.
Quando nos exercitamos a ficar sentados, imóveis, atentos a nós
próprios, reconciliamo-nos com o instante presente. É nessa altura que ficamos
capazes de agir sobre nós próprios, e de ajudar os outros.
Medita nesta visão. que permite agarrar o segredo do instante: "Eu
sou a ponte, e maravilha: não é o rio que corre, é a ponte que avança para a
torrente!"
A ponte é o instante, a partir do qual fazes a experiência do mundo. O
instante não passa. Desloca-se. Pertence ao fluxo eterno.
Tudo começa hoje.
A prática da meditação sentada faz parar o movimento desordenado do
mundo. Permite fazer a experiência profunda do instante.
Uma experiência vivida, forte, intensa não pertence ao passado. Ela está
em ti em cada instante. Ela não deixa o instante.
O guerreiro espiritual nunca deixa o instante presente. Para ele, o instante
presente mantém-se eterno. Ele é o estado original do mundo. O seu esplendor. A
sua nascente.
Fala-se dos poderosos do mundo. Todos o somos. Os tesouros do universo
pertencem-nos, e podemos doá-los aos outros.
Ver as suas trevas, é possuir uma grande luz.
Não esperes por amanhã. Aproveita o instante para pôr em ordem os teus
problemas com outrem. Não te enerves com os teus sonhos e as tuas
decepções.Aprende a dar no instante, sem esperar.
Não guardes para amanhã o que podes viver hoje. O instante passado, que
não soubeste reter, é um instante perdido.
Perder-se não quer dizer escapar de si próprio, separar-se de si
próprio, mas estar acorrentado a si próprio como um galeriano, e reencontrar-se
consigo próprio numa confrontação contínua.
Não existe a oposição noite e dia, passado e futuro. O sol e a lua
brilham ao mesmo tempo.
Se discutimos ruidosamente e nos deixamos levar pelas palavras, o choque
dos argumentos abafa tudo, e não se ouve a torrente que escava, muito perto, o
coração do rochedo. O essencial está no interior. Serve sobretudo dos olhos
para olhar em ti. Procura chegar à arte de deixar passar o que passa, e, na
fuga escorregadia das coisas, reencontrar em si o único ponto fixo.
Tudo o que passa já não existe, e torna-se lembrança. Tudo o que deve
acontecer não existe ainda. O único espaço real em que podes fazer a
experiência da vida chama-se presente. Não há outras realidades.
Aprende a viver o instante presente com o teu corpo e os teus desejos.
Muda a tua maneira de sentir, e verás que o único instante presente é
infinito.
As coisas que não se vêem têm também a sua luz.